Rute Costa


Rute Costa

Clube Albergaria Mazel

Como é que surgiu na tua vida o Futebol?

O futebol de competição surgiu na minha vida da noite para o dia, como se costuma dizer. Joguei Voleibol durante 7 anos e deixei a modalidade porque a minha equipa não tinha escalão de juniores. Tinha um convite para representar uma nova equipa mas o facto de treinar todos os dias e longe de casa fazia com que surgissem alguns inconvenientes, uma vez que era menor de idade. No final da época desportiva participei num torneio de futsal por diversão. Uma das raparigas da minha equipa estava a iniciar a época na CP de Martim e no final do torneio convidou-me para experimentar um treino. Eu sempre gostei de Futebol, recordo-me facilmente das tardes que passava a jogar com os meus amigos na escola, por isso aceitar o convite foi simples. Era tudo muito diferente do que experienciei no Voleibol, gostei e acabei por ficar. Na altura achava que tinha trocado o Voleibol pelo Futebol por um curto espaço de tempo, estava enganada.

O Futebol foi sempre a primeira opção?

Sempre fui muito racional e ponderada em tudo o que faz parte da minha vida. Assim sendo prefiro definir o Futebol como uma prioridade e não como a primeira opção. Tenho perfeita consciência que lhe tenho dedicado muito tempo da minha vida e para ser minuciosa, muito tempo do meu dia-a-dia. Embora ocupe grande parte dos meus dias, os estudos são a minha primeira opção. Talvez se não o fossem já me teria aventurado no mundo do Futebol, à procura de condições melhores do que aquelas que temos em Portugal, mas primeiro quero terminar os meus estudos.

Do que é que já abdicaste pelo Futebol e o que é que o Futebol já te deu?

Poderia fazer uma lista interminável acerca do que abdiquei por causa do Futebol. Talvez esta lista seria mais extensa do que aquela acerca do que já me deu. Contudo, prefiro ter um olhar positivo e não me arrependo de nada. Sei perfeitamente que as pessoas que me rodeiam muitas vezes não compreendem as razões que me levam a dedicar-lhe tanto tempo e a optar por ele em detrimento de outras coisas. Cada vez mais vejo-me como uma atleta. Neste sentido, faço muitos sacrifícios em prol dos meus objetivos e ambições, acredito que mais tarde ou mais cedo serei recompensada por todo o tempo que tenho vindo a dedicar à modalidade.

Como é a Rute quando entra em campo?

Sou uma pessoa muito disciplinada e perfeccionista, quando entro em campo os meus índices de concentração disparam. Tento desligar-me de tudo o que possa atrapalhar o meu desempenho e concentrar-me ao máximo no jogo, sobretudo naquilo que previamente antecipo, relativamente à exigência que terá sobre mim. Diria que quando entro em campo sou muito focada, preocupo-me em ajudar as minhas colegas no que for necessário e detesto falhar. No fundo a Rute que entra em campo é mesma pessoa fora dele. Pretender o melhor é algo que já faz parte da minha maneira de ser e estar tanto na minha vida pessoal e profissional, como no Futebol.

Como foste parar á baliza? Sempre foi essa a posição preferida?

Antes de ser Guarda-Redes joguei duas épocas como avançada. Fui para a baliza porque o meu clube tinha um torneio Sub-18 e as nossas Guarda-Redes não podiam participar por causa da idade. Precisávamos de alguém e várias jogadoras foram experimentando a baliza ao longo dos treinos. A única coisa que me recordo perfeitamente em relação a essa transição foi que aparentemente num desses treinos fiz uma boa defesa a um remate da nossa melhor jogadora. Pelos vistos esse momento foi decisivo para mim, o meu treinador achava que eu tinha caraterísticas para vir a ser uma boa Guarda-Redes e depois desse torneio, passei a integrar o grupo das Guarda-Redes.

Ser guarda-redes, é ser "especial"? O que sentes quando estás na baliza?

Poderá parecer presunçoso da minha parte mas o meu pensamento em relação ao Guarda-Redes é que ele é metade da equipa, e com isto não quero descurar a importância do resto dos elementos. O Futebol é um desporto coletivo e todos são importantes, mesmo aqueles que não jogam regularmente. A posição de Guarda-Redes é provavelmente das mais exigentes no Futebol e ao mesmo tempo das mais desvalorizadas. O Futebol de hoje exige que sejamos o elemento mais inteligente em campo e para além de termos que saber jogar com os pés, também temos que o saber fazer com as mãos. Claro que qualquer pessoa consegue ser Guarda-Redes, duvido é que qualquer pessoa consiga ser um bom Guarda-Redes. Há caraterísticas que por muito que se treine só alguns as conseguem ter. Não consigo expressar com clareza o que sinto quando estou na baliza, depende muito dos jogos. Nesta época desportiva o sentimento de responsabilidade está muito presente, mas existe uma panóplia de sentimentos que vou experienciando. A beleza do Futebol reside no facto de conseguir sempre fazer-nos vivenciar momentos novos e incríveis em frações de segundos.

Passaste por vários clubes em Portugal. O que ambicionas no futuro?

No final de cada época pondero muito bem qual será o próximo passo, tendo sempre em mente as opções que tenho e aquelas que desportivamente se mostram mais vantajosas para mim. Neste momento não me chega ganhar jogos, eu quero fazer boas exibições e ganhar títulos. Não excluo a hipótese de ter uma experiência no estrangeiro, mas estando em Portugal continuarei a trabalhar individual e coletivamente para atingir, quer os meus objetivos quer os da equipa que represento.

Até hoje houve algum treinador/a ou jogador/a que te tenham marcado? Quem e porquê?

Felizmente posso dizer que tive a sorte de ter trabalhado com excelentes pessoas que contribuíram muito para aquilo que sou hoje como pessoa, mas sobretudo como atleta. Em primeiro lugar, quero destacar o mister Rui Pereira, que foi o meu primeiro treinador de Guarda-Redes. Contribuiu muito para a minha formação e fez com que eu sentisse que o meu lugar no futebol era na baliza. A alegria que sentia a treinar com ele, só alguns anos depois voltei a sentir. Em segundo lugar, o mister Miguel Sá Guimarães que desenvolveu um excelente trabalho comigo no Boavista FC e que me fez compreender que a seriedade e o compromisso com que me entregava aos treinos era um grande passo para obter sucesso. Por último, não poderia deixar de falar no mister António Pontes que trabalha comigo regularmente fora do contexto do clube que represento. Foi o responsável pelo meu regresso ao futebol após uma lesão grave no dedo, que teoricamente me impedia de regressar como guarda-redes. A qualidade que tenho demonstrado esta época é mérito do trabalho que tem desenvolvido comigo mas realço principalmente o facto de ele me conhecer muito bem como atleta e saber exatamente o que preciso em cada treino.

Como olhas para o teu percurso na presente temporada?

Muito positivo, não tenho dúvidas que esta é a minha melhor época desportiva. Tenho trabalhado muito todos os aspetos que considero importantes numa guarda-redes, o reconhecimento que tenho tido ao longo da época comprova que estou a um bom nível. Embora alguns objetivos individuais e coletivos possam ficar comprometidos, o objetivo principal desta época está cumprido, destaquei-me positivamente no campeonato e espero continuar um registo positivo nos jogos que faltam.

E a seleção, é sonho ou objetivo?

A Seleção Nacional é o ponto mais alto que uma atleta portuguesa pode atingir. A oportunidade de representar o país é das maiores recompensas de todo o trabalho que as atletas desenvolvem ao longo da época. É claramente um objetivo e tenho trabalhado muito para que surja uma oportunidade.

Como olhas para o futuro do futebol feminino em Portugal?

A jogadora portuguesa usufrui da modalidade em condições gerais precárias, mas cumpre muitas vezes mais do que o esperado, o que merece ser enaltecido. Desde que estou envolvida neste meio tenho assistido a algumas melhorias e isso, é sem dúvida um indicador positivo. Contudo, ainda existe muitos parâmetros que necessitam de intervenção, existem pequenas coisas que têm que ser asseguradas a todas as praticantes. Acredito que aos poucos as condições de prática do futebol feminino irão ser melhores. Especialmente porque estas condições proporcionam o desenvolvimento holístico das jogadoras e consequentemente, o progresso da modalidade. Como esta tem sido uma das preocupações das instituições envolvidas no desenvolvimento do futebol feminino, prevejo o futuro seja risonho.

© 2016 Raparigas da Bola, Portugal

DESIGUALDADE DE GÉNERO NO DESPORTO É EXPOSTANuma semana marcada pelo Dia da Mulher e pelas maiores conquistas portuguesas de sempre no europeu de atletismo, as notícias que se seguiram a estes dias evidenciam a diferença de importância dada à mulher no desporto.

Em geral, é preciso uma mulher ganhar uma medalha para que ela tenha destaque e mesmo quando isso acontece, a visibilidade não é das maiores, como foi visto esta semana.

Ser uma mulher no desporto não é fácil. A falta de visibilidade, a falta de patrocínios e a falta de interesse geram um ciclo que torna complicada a formação de atletas mulheres de ponta.

O grupo Raparigas da Bola luta para quebrar este ciclo, dando voz e visibilidade a atletas femininas, de diferentes modalidades desportivas.

Percebendo-se que no Dia da Mulher há uma tendência para falar sobre mulheres, mas que logo no dia a seguir tudo volta à triste normalidade, o grupo resolveu intervir, usando os próprios jornais desportivos como ponto de partida.

A iniciativa intitulada #ElasTambémJogam, consistiu em transformar todas as notícias publicadas nestes jornais, no dia 9 de março, num gráfico dividido em duas cores: uma para os homens e outra para as mulheres.

Esses gráficos transformaram-se em verdadeiros jornais, mas sem nenhuma foto ou texto, só as cores que evidenciam a diferença de atenção dada às mulheres. Os jornais foram entregues a jornalistas, inluenciadores e atletas para que estes amplificassem o alcance desta ação, ainda no dia 09.

O desejo do grupo não é confrontar os jornais, pelo contrário, é fazer deste um momento de reflexão para que todos se possam unir e dar mais visibilidade às mulheres no desporto, já que elas acreditam que a partir daqui é possível começar a mudar este ciclo de desigualdade. «Mais visibilidade gera mais interesse do público, que desperta interesses de marcas, que gera investimentos e consequentemente volta a gerar visibilidade.» relata Marta Faria, fundadora do Raparigas da Bola.

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