Rita Castro e Silva, F. C. Romariz

Fale-nos um pouco do seu percurso até ao presente. Como "entrou" a Rita no mundo do futebol...

Desde a minha adolescência que o futebol está presente na minha vida. Na escola, ficava extremamente feliz quando era a escolhida dos rapazes para fazer parte da equipa. Infelizmente o futebol feminino em Felgueiras, a minha cidade, chegou tardiamente. Esta demora, fez com que eu fosse jogadora federada noutra modalidade, o andebol. O futebol ficou em segundo plano até aos 18 anos. Nessa altura o FC Felgueiras criou a equipa de futebol feminino, e foi aí que nasceu esta paixão e comecei verdadeiramente a praticar a modalidade da minha vida.
Após 4 anos no FC Felgueiras, atingi o nível máximo como jogadora ao chegar ao Boavista FC.
Esse meu salto coincidiu com a faculdade e eu acabei por deixar um bocadinho de parte o futebol. Mas a paixão por esta modalidade ficou sempre bem patente, até que fui convidada para orientar uma equipa de futsal feminino no FC Lixa. Após a passagem pelo FC Lixa, fui convidada para se adjunta da Associação Desportiva de Amarante.
Estas experiências fizeram crescer em mim o prazer por liderar, planear e conduzir uma equipa de futebol.
E foi assim que decidi tirar o curso de treinadora profissional.
Acabei por fazer estágios no Futebol Clube Vizela no plantel sênior masculino que militava na 2a divisão nacional, e no ano seguinte estagiei no Amarante FC nos tranquinas. O convite do FC Romariz surgiu há uns meses atrás e eu não poderia estar mais feliz com este novo projeto. Espero que este projeto possa contribuir para o meu crescimento no mundo do futebol feminino nacional. 

"O treinador é acima de tudo também um educador na formação de um atleta! Formamos acima de tudo homens e mulheres, queremos que sejam excelentes atletas mas também excelentes cidadãos! "


Digamos que é sempre mais "fácil" passar de jogar a treinar...o que passou da jogadora para a agora treinadora?

Ambas as vertentes tem o seu grau de dificuldade pelo menos eu acho.. Como jogadora tens aquela responsabilidade de dar rendimento e de apresentar qualidades ao treinador para poderes jogar mas a responsabilidade não é tanta como liderares uma equipa, como planificares um treino, tens que pensar em tudo o que dizes pois sabes que te estão a ouvir e que levarão para dentro de campo a tua ideia a tua filosofia de jogo e tudo aquilo que arduamente preparaste e treinaste durante a semana.. é sem duvida um papel muito diferente e sou muito mais realizada agora como treinadora do que o que um dia fui como jogadora .. era muito jovem e não queria nada com o jogar.. enquanto que agora é diferente a maturidade permite-me olhar agora o futebol de outra forma e é um prazer indescritível que sinto ao planificar e implementar o meu treino assim como ter que me adaptar a tudo que acontece no treino e tentar corrigir..

Mais do que tática, um treinador também forma os seus jogadores. Quais os principais valores que passa ou quer passar às suas atletas?

Exatamente. O papel do treinador é importantíssimo na formação de um atleta, às vezes uma palavra mal dita pode alterar completamente o rendimento e forma de estar do atleta ou até mesmo o abandono de uma modalidade que até venha a implicar anomalias no seu futuro, dependendo das idades há revoltas que são irreversíveis, e alteram completamente a sua formação, temos que dizer e fazer as coisas sempre com base na reflexão! O treinador é acima de tudo também um educador na formação de um atleta! Formamos acima de tudo homens e mulheres, queremos que sejam excelentes atletas mas também excelentes cidadãos! O sentido de responsabilidade e compromisso para com a equipa é primordial numa fase inicial, e com isso surge o respeito por todos, saber ser e estar, saber ouvir, educação, lealdade com o colega, espírito de equipa e acima de tudo humildade .. a humildade é a base de tudo. 

"um balneário de mulheres testa mesmo os limites de um treinador seja homem ou mulher,.." 


O desafio esta época é maior, orientar uma equipa sénior feminina. Qual o principal objetivo?

O principal objetivo passa por fazer um campeonato tranquilo, ajudar as minhas atletas no seu crescimento pois são atletas muito jovens e de um imenso talento e claro crescer também um pouco mais como treinadora. É a primeira vez que o FC Romariz tem seniores femininos, o clube é gerido por gente de muito trabalho e muita humildade e num primeiro ano não entraram em grandes loucuras relativamente a objetivos, e isso parecendo que não dá-nos uma certa estabilidade para trabalhar e quem sabe.. surpreender.

Cada vez mais temos mulheres a treinar mulheres. Qual, no seu entender, é a mais valia?

Está a ser feito em Portugal um enorme trabalho em prol do desenvolvimento do futebol feminino, e com isso as mulheres vem um caminho para se poderem implementar no mundo do futebol, onde será realmente uma mais valia pois as mulheres conhecem-se melhor umas as outras e as atletas sentem-se mais à vontade a falar com uma mulher como treinadora..

Também há dificuldades...

Bastantes dificuldades mesmo! As mulheres são bem mais "problemáticas" e na hora em que as coisas não correm bem à equipa às vezes a presença de um homem, uma voz mais grossa e bem mais alta é necessária para acalmar as coisas .. claro que contra mim falo até porque acho que é tudo uma questão de "pulso"..de personalidade.. um balneário de mulheres testa mesmo os limites de um treinador seja homem ou mulher, mas isso também nos leva a aprender/crescer bastante para no futuro lidarmos melhor com essas "dificuldades". 

Para terminar... Até onde pode chegar o futebol feminino Português? Tem pernas para andar e chegar longe na Europa?

O futebol feminino em Portugal está a evoluir muito! A prova disso mesmo são os intitulados "clubes grandes" que já têm em consideração o futebol feminino e fazem as suas apostas em atletas nacionais e internacionais para se tornarem cada vez mais competitivos nesta modalidade. Se recuarmos há uns anos atrás, isto não acontecia. Pensei durante muitos anos que em Portugal o futebol feminino a um nível profissional, não iria evoluir como vemos noutros países.. mas de repente as coisas mudaram..Aliás, a própria seleção feminina nunca esteve em fases finais de grandes competições e o ano passado já o conseguiu! Acho que realmente temos pernas para andar e as coisas vão acabar por acontecer, o futebol feminino em Portugal está num excelente caminho! 




© 2016 Raparigas da Bola, Portugal

DESIGUALDADE DE GÉNERO NO DESPORTO É EXPOSTANuma semana marcada pelo Dia da Mulher e pelas maiores conquistas portuguesas de sempre no europeu de atletismo, as notícias que se seguiram a estes dias evidenciam a diferença de importância dada à mulher no desporto.

Em geral, é preciso uma mulher ganhar uma medalha para que ela tenha destaque e mesmo quando isso acontece, a visibilidade não é das maiores, como foi visto esta semana.

Ser uma mulher no desporto não é fácil. A falta de visibilidade, a falta de patrocínios e a falta de interesse geram um ciclo que torna complicada a formação de atletas mulheres de ponta.

O grupo Raparigas da Bola luta para quebrar este ciclo, dando voz e visibilidade a atletas femininas, de diferentes modalidades desportivas.

Percebendo-se que no Dia da Mulher há uma tendência para falar sobre mulheres, mas que logo no dia a seguir tudo volta à triste normalidade, o grupo resolveu intervir, usando os próprios jornais desportivos como ponto de partida.

A iniciativa intitulada #ElasTambémJogam, consistiu em transformar todas as notícias publicadas nestes jornais, no dia 9 de março, num gráfico dividido em duas cores: uma para os homens e outra para as mulheres.

Esses gráficos transformaram-se em verdadeiros jornais, mas sem nenhuma foto ou texto, só as cores que evidenciam a diferença de atenção dada às mulheres. Os jornais foram entregues a jornalistas, inluenciadores e atletas para que estes amplificassem o alcance desta ação, ainda no dia 09.

O desejo do grupo não é confrontar os jornais, pelo contrário, é fazer deste um momento de reflexão para que todos se possam unir e dar mais visibilidade às mulheres no desporto, já que elas acreditam que a partir daqui é possível começar a mudar este ciclo de desigualdade. «Mais visibilidade gera mais interesse do público, que desperta interesses de marcas, que gera investimentos e consequentemente volta a gerar visibilidade.» relata Marta Faria, fundadora do Raparigas da Bola.

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