Rute Jorge, Clube Hóquei dos Carvalhos,23 anos
- Quem
é a Rute Jorge?
A Rute Neves Jorge é uma miúda de 23 anos, natural de Arazede, Coimbra. É uma menina frágil e muito sentimental, mas segura de si, apaixonada pela vida, completamente sonhadora e lutadora, apesar de todos os obstáculos que lhe apareçam á frente, tende sempre a dar a volta e sorrir para a vida, porque não há nada mais bonito que sorrir a um "problema", certamente passará a ser algo normal e não tão assustador. É uma miúda que acredita sempre que o sonho é possível e tem na sua cabeça muitos e muitos objetivos. Ela tem uma enorme vontade de estar sempre em evolução, quer a nível desportivo, profissional e pessoal, e aceita cada desafio/oportunidade como se fosse a última. Acredita que um ser humano para ser feliz tem de se manter ativo. Licenciada em Gestão de Empresas; Atualmente trabalha no Gabinete de Contabilidade Fernanda Branco Lda., em Valongo; e estuda Mestrado em Contabilidade e Finanças na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.A Rute é uma eterna apaixonada pelo Hóquei em Patins, tanto como praticante como espectadora, acompanha ao máximo, principalmente o feminino e a 1ª divisão masculino. Pratica esta grande modalidade desde os 8 anos de idade e desde muito cedo apanhou um sentimento especial por este desporto que lhe ensinou o verdadeiro sentido da palavra amor.
"Sonha...Porque se é para sonhar então que seja sempre em grande!" e esta sou eu.
- Em
que fase da tua vida surge o Hóquei em Patins?
Após ter experimentado alguns desportos, nomeadamente natação, futsal, futebol 11 e danças afro-latinas, surge o convite para ir a um treino de iniciação, por parte de uma colega da minha mãe, na qual a filha jogava hóquei há pouco tempo. Posso desde já anunciar essa minha companheira de infância e grande jogadora de hóquei em patins, a Ana Catarina, minha atual colega de equipa na Seleção Nacional.
- Fala-nos um pouco do teu percurso desportivo.
Bem, o meu percurso desportivo foi bastante desafiante. Em 2003, foi o ano do conhecimento desta modalidade, comecei por fazer uns treininhos de iniciação onde aprendi a patinar, como pegar num stick, formas de cair e pouco mais. No final desse mesmo ano, surge a oportunidade de puder jogar numa equipa de meninos, para realização da época 2003-2004. Aceitei de imediato, e com isto pouco tempo tive de preparação e aprendizagem inicial. Durante essa época fui jogadora de frente, queria muito marcar golos, mas o meu treinador insistia em colocar-me a defender (acredito que isso se deva a minha falta de prática e rapidez em cima daquelas 8 rodas ahahah), e lá tinha de ser; Perto do final da época falei com o meu treinador, dizendo-lhe exactamente " se é para defender assim, então quero ir para a baliza"! Obviamente que estas minhas palavras não foram levadas a sério e muito menos aceites por parte dos meus pais. Eu era uma miúda de 9 anos muito sossegada e frágil e na visão deles não poderia ocupar um cargo tão importante nesta modalidade, para não falar que ia levar com bolas e ficar marcada e coisas desse género. Com o passar do tempo, o gr da minha equipa foi desistindo do hóquei por motivos pessoais, e eu continuei a insistir no que realmente queria, até que chegou o dia de o substituir, após variadas tentativas, claro só o substitui porque os meus pais não puderam estar presentes nesse mesmo treino. Desde esse dia o meu olhar pela modalidade tinha mudado, e ao longo dos treinos os meus pais foram aceitando, e a paixão foi crescendo.Com apenas 12 anos ingressei na equipa sénior feminina, na qual agradeço de coração todos os ensinamentos e toda a garra transmitida que me ajudaram a crescer quer a nível desportivo quer a nível pessoal. Obrigada às Veteranas (de momento) do AFA. A alegria de puder partilhar balneário convosco, o próprio jogo, a convivência com pessoas de idade bastante superior à minha, algumas delas colegas de escola da minha mãe. Foi sem dúvida o melhor. Assim estive naquele clube durante 6 anos, onde fiz a minha formação inicial. Após esse tempo a equipa sénior feminino tinha acabado naquele clube por falta de atletas. Eis que tinha chegado a hora da mudança, ou seguia a caminhada hoquista por outro clube, assegurando os meus pais todos os custos extras, ou ficaria simplesmente por ali. Nessa altura, e com o prazer que tinha tido em jogar com atletas de um patamar diferente do meu, já tinha idealizado grandes sonhos e também, já tinha grandes referências neste mundo do hóquei patins. Jamais queria desistir, tive a sorte dos meus pais também serem uns loucos apaixonados por esta modalidade e me darem o prazer de continuar e sonhar. Obtive um convite por parte de um treinador atual do AFA (Romeiro), para ingressar numa equipa e clube novo juntamente com ele e mais umas colegas que iriam do AFA e lá fui eu ... Com apenas 15 anos, passei então pela equipa sénior feminina da AA Coimbra, onde conseguimos nesse mesmo ano passar à segunda fase do campeonato feminino, nada conquistado anteriormente. Momentos felizes!
Os sonhos continuavam...
Na época seguinte, tive uma excelente proposta por parte de um grande clube, e que não escondo a minha enorme paixão por ele, o HCM - Hóquei Clube da Mealhada. Além de ter conhecidos bons treinadores, dirigentes, colegas de equipa, tive o privilegio de ter tido um mister pela qual terei sempre uma consideração especial, o Diamantino Fernandes, grande senhor e um treinador com conhecimentos fora do que estava habituada, sendo um dos maiores pilares para eu ser o que sou hoje...Na minha 1ª época neste clube, sofri uma lesão no joelho. Num jogo a eliminar para a taça de Portugal, na qual acabamos por não ter muito sucesso. Numa deslocação poste a poste, fiz uma rotura do menisco interno, que me levou a fazer uma pequena cirurgia, parando alguns meses a minha carreira. Depois retomei, e por lá estive na bairrada mais 6 anos. Por azar, e mais uma vez, o cenário repetia-se, a equipa sénior feminina havia acabado naquele clube pela mesma razão de falta de atletas. Regressei de novo ao AFA (na altura já tinham formado nova equipa com meninas mais jovens), na qual tive uma época menos boa, pois o meu joelho voltou a dar sinais, acontecendo uma lesão parecida a anterior, num mesmo movimento, voltaram as dores no menisco, as tendinites, e desta vez um desvio da rótula. Estive parada praticamente a época toda, na qual só fiz dois jogos (um deles com o CHC). Foi uma época sofrida mas felizmente de recuperação. Mesmo sabendo de todo o meu percurso, alguém nunca desistiu de mim, e da vontade que eu tinha de ser "alguém" neste desporto. Tive então uma proposta por parte do CHC para pertencer ao plantel sénior feminino para a época 2017/2018. Foram meses de conversas, pois envolveria mudar por completo a minha vida. Mas, já com 22 anos, e a licenciatura terminada, decidi dedicar-me ao hóquei naquela tal época a 200% e quiçá sonhar mais um pouco, pois sabia da qualidade grandiosa daquela equipa feminina (e assumo que na verdade eu também queria mostrar a muitos que não acreditavam em mim, e que depois de todos os contratempos que tive, inclusive profissionais de saúde, me diziam que não ia jogar mais hóquei, que não podia, que não ia conseguir ... enfim!). E hoje o que digo? Fogo, que época incrível!!! Que equipa maravilhosa, que união fantástica, que orgulho. Fomos Vice-Campeãs e finalistas da taça de Portugal. E mais, "O SONHO COMANDA A VIDA" eis que comandou a minha. O meu treinador Rafael, apostou desde cedo em mim, dando me votos de confiança jogo após jogo, na qual pude mostrar o que realmente sou e sonhava ser, mostrou me vezes sem conta que "o caminho faz-se caminhando" e que um dia eu ia ser ainda mais feliz.
Sim, eu CONSEGUI realizar o maior sonho de infância, sendo chamada à seleção Nacional.
E é isto, não consigo falar "um pouco do meu percurso desportivo" quando ele foi tao grandioso, sofrido, trabalhoso e persistente até ao dia de hoje.
- Não deve ser fácil conciliar vida profissional, pessoal com os treinos e os jogos. O que, para ti é mais difícil?
O mais difícil para mim é sem dúvida os horários dos treinos semanais que alteram toda a minha suposta rotina. Descansar 5/6h por dia não é o suficiente para me manter com saúde mental e física, para no dia seguinte estar a 100% para ir trabalhar, depois estudar e ainda treinar (ginásio e hóquei em patins). É demasiado difícil e de extremo cansaço, tendo eu uma vida muito activa, pois trabalho durante a semana, estudo mestrado às sextas e sábados e jogo hóquei patins aos domingos. Não ter tempo para mais nada a não ser isto e isto mesmo, é complicado. Gostaria de ter mais tempo para conviver com os meus familiares, para sair com os meus amigos, e para poder fazer coisas novas. Adoro coisas novas! Não sou muito de rotinas. Mas nesta fase da minha vida é assim que tem de ser.
- Foi a tua primeira chamada à Seleção e logo para disputar um Europeu "em casa"! Qual foi o principal sentimento? O que te passou logo pela cabeça?
É verdade, após anos de muito choro, de achar que se calhar me valorizavam mais do que deviam, pelos comentários que ia ouvindo de treinadores, de pais das minhas colegas, de todo o apoio que ia tendo, muitas pessoas acreditavam que eu ia lá chegar. Neste momento da minha vida e com esta idade já não acreditava a 100% que seria possível, tendo em conta que a nossa seleção é muito jovem. No dia da minha 1ª convocatória para o estágio da seleção nacional, que seria já o segundo centro de treinos, pois no primeiro eu não estive entre as 3 guarda-redes escolhidas. Foi um dia estranho, eu não fazia ideia que a convocatória estava para sair nem tão pouco estava a contar ser chamada. Estava no escritório a trabalhar e recebo várias mensagens praticamente ao mesmo tempo de amigas que também jogam hóquei em diversos clubes, achei estranho e abri, eram só mensagens e "testamentos" de parabéns a darem-me forças para a nova fase, que sempre acreditaram em mim, e coisas desse género. Achei estranho, abri o facebook e lá estava o meu nome na convocatória das 12 escolhidas pelo seleccionador Carlos Pires, para o 2º centro de estágios. A minha reacção, para muitos foi estranha, para mim foi a mais normal possível depois de todo o meu percurso desportista, foi de muitas lágrimas, nervosismo, ansiedade, eu não estava a acreditar que o meu sonho se estava a realizar. As minhas colegas de trabalho viram-me a chorar e ficaram preocupadas, quando lhes contei, perceberam logo que era tudo felicidade. De seguida, liguei para os meus pais e para o meu namorado a chorar de alegria por ter conseguido e até eles se emocionaram com a minha reacção, nada poderia ser mais importante para mim, que tamanho reconhecimento! O meu principal sentimento foi o Orgulho que sentia por todos os esforços que já tinha feito, por todos os momentos maus que tinha passado, por tudo! Tudo que naquele momento se transformou em aprendizagem e oportunidade. Até ao último dia de estágio final (passando por dois anteriores), nunca me iludi, fui sempre com os pés bem assentes na terra, sonhava muito em ficar nas 10, trabalhei muito durante o verão para chegar ao estágio final na minha melhor forma, tentei preparar-me ao máximo para causar dúvidas nas decisões finais, mas sempre soube que ia custar bastante, mas não era impossível. Porque quem espera alcança, seja qual for o momento, e porque quem sonha acredita sempre até ao fim. No dia em que soube que ficaria nas 10 escolhidas, eis que voltaram as lágrimas, eis que voltou o orgulho imenso, eis que me senti completamente recompensada. Abriu-se ali mais uma porta para um outro grande sonho meu, que só poderia conquistar caso ficasse nas 10, sagrar-me campeã da europa, e em Portugal, num pavilhão que me acolheu tantos anos, pertinho de casa, melhor não poderia ser. Foi sem dúvida a maior conquista individual da minha vida até hoje e que dedico inteiramente a uma pessoa que já partiu fisicamente, mas que desde sempre me protegeu como ninguém, me incentivou a lutar e a tentar ser sempre melhor que ontem, ao meu anjo da guarda e avó rainha, é para e por ti
Poder vestir Portugal não se explica, SENTE-SE!
OBRIGADA A PORTUGAL!
- Como disseste e bem quando falámos, o jogo ainda não terminou e por essa razão não vou perguntar nada em específico sobre isso. A questão é, o jogo está em 2-3, a luz falha no pavilhão...O que pensaram naquele preciso momento?
Inicialmente não entendemos bem o que se estava a passar e jamais imaginaríamos o que se iria atravessar poucos minutos a seguir àquela falha de luz. Ver pessoas a gritar, a saltar das bancadas cá para baixo, vidros a partir, chapas do tecto a levantar, o barulho intenso dos ventos... muito MEDO! Contudo, falando apenas em meu nome, depois de perceber que o furacão Leslie estava a pregar-nos uma enorme partida, e verificando a gravidade de tudo. Em mim, instalou-se um pânico aterrorizante, achava que seria mesmo um adeus. Sim, eu sou muito dramática não escondo isso e se em outros países as tempestades fazem muitos feridos graves e tiram a vida a muitas pessoas porque é que em Portugal um dia não poderia ser assim... esse dia podia ter sido o 13/10/2018. Assustador! Em primeira mão foram dois alemães que estavam num dos balneários que me agarraram e tentaram confortar, pois em pânico eu só queria saber dos meus pais, tê-los comigo e certificar-me que íamos ficar ali juntos a ultrapassar aquele momento mau e marcante nas nossas vidas. Mas juntos todo o medo seria encarado de maneira diferente. Reuniram a equipa e tentaram sempre proteger-nos e confortar-nos, pouco depois apareceram os nossos pais. E tudo foi parecendo ficar melhor. Foram sem dúvida momentos de angústia e muitas rezas confesso. Só quem lá esteve sabe do que realmente falo. Quanto ao 2-3? Pouco importou naquele momento em que só queríamos que todos ficássemos bem. Sim, ficaram 105 s por jogar, e para quem viu foram mesmo 2:41 minutos por jogar justamente, porque retomámos o jogo sem as condições necessárias a um bom resto de tempo de jogo, e a ver as pessoas aos gritos e a fugir das bancadas. Mas enfim. Que sejam 105 segundos, e que sejam os 105s mais felizes da minha vida. Nesta modalidade, o que parece pouco se transforma em muito, e cada segundo é importante e decisivo dentro daquelas quatro tabelas. Não tenho dúvidas que não desistiremos de acreditar. Estamos a 105s e 2 golos do sonho.
- O que passa cá para fora é que o grupo é bastante unido. Sendo composto maioritariamente por jogadoras muito jovens, como conseguem esse equilíbrio?
Ora, o grupo é todo muito jovem, não há grandes discrepâncias de idades, vai desde os 19 aos 25, o que eu não considero muito. É um grupo muito forte, muito unido e muito trabalhador. São 10 jovens com muito amor à nossa pátria, e que durante este ultimo mês de preparação se uniram muito para ultrapassar cada combate e sim chegarmos então à nossa maior batalha e mostrarmos o quão guerreiras somos. A união faz a força, e tudo o que mostramos cá para fora foi toda a realidade. Nós somos umas mulheres de armas, e de alma e coração defendemos o nosso país e a nossa modalidade, mostrámos que o hóquei feminino tem muito valor, e estamos VIVOS! O hóquei patins feminino só precisa de mais apoios e mais investimentos para evoluirmos cada vez mais.
- O que podemos esperar da Rute Jorge, num futuro próximo, a nível desportivo?
Nesta época que se aproxima, 2018/2019 defenderei as balizas do CHC-Clube Hóquei dos Carvalhos novamente, e mais uma vez, com os mesmos objetivos da época passada, e que este ano seja ainda melhor que o passado, ser vice-campeã e finalista da taça de Portugal só nos traz ainda mais responsabilidade e vontade de chegar mais longe. Brevemente aproxima-se a *Supertaça, depois o campeonato, jogo a jogo e os resultados aparecerão certamente. Contudo, o futuro a Deus pertence...
Deixo aqui uma sugestão e talvez um objetivo/sonho de muitas miúdas que estão agora a começar a crescer no hóquei em patins feminino, como eu já o tive quando era miúda e sonhava em jogar na Fundação Nortecoope - Maia, que entretanto acabou. Gostaria muito de ver equipas com nomes Grandes (FCP, SCP, UDO, ADV, entre outras), a darem um passo a frente e assumirem equipas de hóquei feminino, investindo não só em masculino da 1ªdivisão, mas dando a cara e o investimento também ao hóquei feminino. Acreditem que nós merecemos muito mais! Acreditem que o hóquei em patins feminino seria muito mais renhido, mais desafiante, e sem dúvida mais valorizado. Acreditem em nós e ajudem nos a crescer.
*A entrevista foi realizada antes da Supertaça, que foi entretanto, disputada, no dia 27 de Outubro.
Marta Faria, Raparigas da Bola