Maria Vieira, 21 anos, Sport Lisboa e Benfica



Com tudo isto, acredita que ainda há muita gente que não te conhece. Para os "iluminar", quem é a Maria Vieira?

A Maria é uma rapariga alegre, ambiciosa, divertida, bem disposta, dedicada, perspicaz, sincera, persistente, exigente, teimosa, reservada e uma apaixonada pela vida e pelas coisas que faz. É uma rapariga simples que gosta de dar primazia à família e aos amigos, mais do que a qualquer outra coisa!


Em que altura da tua vida nasce esta "apetência" pelo Hóquei?

O Hóquei entrou na minha vida por volta dos 4 anos. Na escola onde eu andava e onde curiosamente vivi grande parte da minha vida, Salesianos do Estoril, havia a patinagem à hora de almoço num dos pavilhões. Eu frequentava a patinagem e quando terminava entravam de seguida "os miúdos" do hóquei e eu ficava lá a ver. Até que houve um dia pedi para experimentar e desde então foi até hoje! Naquela altura havia bastante o estereótipo de que as raparigas só iam para a patinagem e os rapazes para o hóquei em patins. Eu era a única miúda entre tantos rapazes mas era isso que mais me aliciava: estar no meio deles e querer fazer a diferença.


O teu percurso está, inevitavelmente, ligado ao Sport Lisboa e Benfica. Fala-nos um pouco dele até agora...

Comecei, como disse anteriormente, na minha escola, os Salesianos do Estoril. Na altura era avançada. Cheguei a experimentar ir à baliza mas a verdade é que detestei! O equipamento fazia-me imenso calor, era pesado, tinha o cabelo nos olhos e quase nem me conseguia mexer! O primeiro contacto foi então aterrorizador... lembro-me que até chorei e pedi para não me porem mais à baliza. Continuei como avançada e acabei por me mudar para o Clube Desportivo Paço de Arcos. Joguei lá 1 época e foi na época seguinte que cheguei ao Sport Lisboa e Benfica, onde estive na formação durante 4 anos a jogar com rapazes. Os primeiros 2 anos joguei como avançada e os restantes 2 anos como guarda redes. Na altura não me passavam muito a bola e isso aborrecia-me. Não era bem sucedida como avançada e por isso pedi para voltar a experimentar ir à baliza. Acabei por gostar e por não sair mais da baliza. Acho mesmo que foi a melhor coisa que fiz ahahah. Depois dessas 4 temporadas ingressei no Cascais durante 2 épocas e no Sintra durante 1 época. Após esses 3 anos acabei por ter de ingressar numa equipa feminina (até então joguei sempre com rapazes) por já não me ser permitido jogar mais com rapazes. Mudei-me para o Nafarros onde estive 1 época e foi na época seguinte, 2012-2013, que regressei ao Sport Lisboa e Benfica e ingressei a equipa Sénior Feminina. Posso dizer que sou uma verdadeira sortuda! Ter 11 anos dos meus 18 anos de hóquei em patins ligados ao clube do meu coração é um sentimento inexplicável e indescritível. Em termos de formação, conquistei 2 campeonatos distritais pelo Benfica (2004-2005 e 2005-2006) e um vice campeonato nacional, na época 2009-2010, pelo HC Sintra.


Qual a maior dificuldade em gerir treinos e jogos, com a vida pessoal e a vida de estudante?

A maior dificuldade chama-se Tempo. É o tempo que em determinados momentos parece escasso mas que acaba sempre por haver sempre algum. É preciso é saber distribui-lo da melhor maneira possível!! O meu curso exige muito tempo da minha parte, tal como o Hóquei (não só a nível do Clube como também da Selecção) então o segredo passa por planear o meu dia a dia da melhor maneira possível, de modo a não deixar nada para trás! Costuma dizer-se que "Quem corre por gosto não cansa" e esse é, sem dúvida, um dos meus lemas de vida. Não há impossíveis e acreditem que desde que entrei na faculdade percebi que o céu é o limite. Vivo diariamente com o objectivo de me superar e de ir mais além. Quando há vontade e quando se gosta realmente daquilo que se faz... tudo é possível!!


A família será com certeza o teu maior suporte. Foram sempre os primeiros a apoiar-te na escolha da modalidade? Como vêm eles a Maria guarda-redes?

Sem dúvida que os grandes responsáveis de tudo isto são os meus Pais. Sem eles eu não teria chegado onde cheguei. Foram eles que desde o 1º dia, com 4 anos, me disseram "Sim!". Levaram-me sempre a todos os treinos, a todos os jogos, a todos os torneios. Ainda hoje vão a quase todos os treinos e jogos, em Portugal ou no estrangeiro. E isso demonstra a dedicação deles e o carinho que sentem por mim. Não há nada melhor que olhar para a bancada e vê-los quando as coisas não estão a correr bem. Posso dizer que são a minha maior força e que em finais anteriormente disputadas foi o olhar deles que me fez acreditar e pensar: "Não vou sofrer mais nenhum golo". Passaram muitos horas a ver-me treinar, deixaram de dormir ou descansar à noite para me levarem a treinos que acabavam à meia noite, o que implicava chegar a casa à 1h da manhã e com o despertador a tocar no dia seguinte às 5h da manhã para irem trabalhar. Sem dúvida que eles são o meu maior pilar e estarei eternamente grata a eles por tudo o que fizeram e fazem por mim. Eles sabem que ainda hoje quando faço uma exibição mais bem conseguida ou quando conquisto alguma competição é dedicado a eles. Ontem, hoje e sempre! Relativamente à restante família também estão sempre presentes! Muitos deles (avós, tios, primos) vão a muitos jogos e ligam-me sempre antes ou depois dos jogos, a desejar boa sorte ou para saber como foi. Todos eles acompanham o meu percurso e o da equipa. Vibram muito também porque a minha família é toda benfiquista! Inclusive na final do Campeonato da Europa 2018 em Outubro na Mealhada tive o prazer de ter grande parte da minha família presente e isso encheu-me o coração. A minha família é, sem dúvida, a coisa mais importante e estou muito contente e grata pela família que tenho! Sinto que todos eles estão orgulhosos de mim e do meu percurso. Dizem que sou um exemplo e uma lutadora. Costumam falar de mim aos amigos deles e é isso que me deixa mais feliz: ver o sorriso no rosto deles quando falam de mim. Saber que os deixo orgulhosos com o meu trabalho e as minhas conquistas não tem preço!


O que significa para ti praticar esta modalidade? O que é o hóquei na tua vida?

O Hóquei, a par da medicina, é o centro da minha vida. Costumo dizer às pessoas mais próximas que o hóquei para mim é um escape. É onde posso libertar todas as energias. É como algo que me limpa a mente e me faz um "reset" para o dia seguinte. É das coisas que mais prazer me dá fazer nesta vida! Não me imagino sem Hóquei na minha vida. É aquilo que me faz sentir viva. Adoro aquele nervoso miudinho antes do jogo começar!! É para isso que trabalho. Para poder estar todos os fins de semana dentro da pista a sentir aquele nervoso miudinho. Costumo dizer que quando deixar de o sentir é porque está na hora de deixar o hóquei. A hora do treino é a minha hora preferida do dia. Chega a haver dias em que conto as horas para ir treinar. É uma adrenalina e uma alegria tão grande que acabou por se tornar um vício. Para mim sacrifício é quando calha um fim de semana em que não temos jogo. Não sei o que fazer!! Acabo sempre por ir ver um jogo dos masculinos. Não consigo estar "longe" da modalidade!


Quem vê de fora acha logo que um GR de hóquei sofre imenso durante o jogo. Pela posição em que está a maior parte do tempo e por ter um equipamento que, ao que parece, é bastante pesado e quente. Porquê a baliza? Nunca quiseste estar em campo numa outra posição?

A posição de guarda-redes, seja em que modalidade for, é a posição mais ingrata de todas. Podemos estar um jogo inteiro a defender tudo e a segurar a equipa que o nome que vai sair da boca do speaker do pavilhão ou no jornal é o do jogador que marcou o golo. Por norma, o nome de um guarda redes é mais falado quando ele erra e o crucificam, do quando ele é o grande responsável pela vitória. Porém, com o passar do tempo sinto que esta mentalidade tem vindo a melhorar e que as pessoas e a própria imprensa começam a olhar e abordar os guarda redes com outros olhos, com outro respeito, e fico muito satisfeita por isso! Para mim, ser guarda redes é ser uma pessoa corajosa porque temos nas nossas "mãos" toda a Equipa. Se o avançado falhar, tem os defesas e o guarda redes. Se os defesas falharem têm o guarda-redes como background. E se o guarda redes falhar? Ou a bola vai ao lado, ou é golo... Relativamente ao guarda redes de hóquei em patins concretamente, é realmente uma posição desafiante e enganadora, isto porque a maioria das pessoas acha que nós não nos mexemos, que basta estarmos agachados e parados e que a baliza é pequena. Só quem é, ou já foi, guarda redes de hóquei em patins sabe perfeitamente o quão trabalhosa e difícil é esta posição. Começa pelo equipamento. O meu saco de guarda redes, quando é pesado no aeroporto, pesa 20kg. Já se imaginaram com tanta coisa posta em vocês? Temos de ter a capacidade de nos mexermos com todo aquele equipamento e aguentar, principalmente no verão, todo aquele calor. Temos de ser ágeis, rápidos, atentos. A bola de hóquei atinge grandes velocidades e se não formos rápidos e não estivermos suficientemente atentos, a probabilidade da bola entrar na baliza é grande. Além disso, é uma bola que magoa. Muita gente me pergunta como tenho coragem, se não tenho medo. Costuma dizer-se na gíria que "A bola tem olhos" e, portanto, se nos encolhermos ou tivermos medo vamos magoar-nos mais do que se pusermos o corpo, com tudo, à frente da bola.


Enquanto equipa já ganharam tudo "dentro de portas". Lá fora têm a conquista de uma Liga Europeia e a participação na 1ª Edição da Taça Intercontinental no currículo. O que falta ganhar?

Representamos um Clube que quer sempre mais. Trabalhamos diariamente em busca de mais e melhor! Queremos voltar a ganhar a Liga Europeia. Andamos perto. E esse é sempre o nosso grande objectivo da época, além da revalidação do Campeonato Nacional. Procuramos estar no momento das decisões porque quanto mais vezes lá estivermos maior é a probabilidade de ganharmos. Agora com esta nova competição passa também pelos nossos objectivos a presença novamente na Taça Intercontinental e quem sabe conquistá-la. Não vemos nenhum destes objectivos como uma obsessão mas sim como algo que nos dá força e que nos "empurra para a frente", fazendo-nos trabalhar a 200% a cada dia que passa.


"Salta" para fora do ringue uma sensação de grande união e companheirismo entre todo o grupo de atletas. Como são vocês enquanto pessoas? Como lidam umas com as outras?

Esta equipa é uma equipa muito alegre! É uma equipa jovem que dentro e fora da pista está sempre com um sorriso no rosto. Sabemos que dentro da pista é para trabalhar e darmos tudo de nós, todos os dias, mas ainda assim mantemos o sorriso na cara porque estamos a fazer o que mais gostamos ao serviço de um clube para o qual não tenho palavras: o Sport Lisboa e Benfica. Fora da pista somos miúdas descontraídas, simpáticas, bastante acessíveis e humildes. Umas trabalham e outras estudam. Somos pessoas como todas as outras, apaixonadas pelo Hóquei em Patins! Somos 11 atletas, 8 das quais vivem juntas. Estamos quase sempre juntas. Dentro e fora de casa. Temos o hábito de lanchar, jantar, ir ao cinema ou passear juntas. Acreditamos que isso alimenta o espírito de equipa e talvez seja esse um dos segredos para o nosso Sucesso desportivo, além do nosso Trabalho.


E a nível individual, o que te falta alcançar no Hóquei em Patins?

O meu maior sonho é ser Campeã do Mundo!

Em 2016 estivemos muito perto, mas não foi possível. Em 2018 também estivemos muito perto de sermos Campeãs da Europa, quer de clubes, quer de Selecções. Acredito que quem trabalha e persiste acaba por ser SEMPRE recompensado. E é por isso que continuo aqui a trabalhar! Porque acredito que um dia o destino nos vai sorrir e um destes dias Portugal será Campeão do Mundo e da Europa de Hóquei em Patins Feminino. 




Marta Faria e Olga Reis, Raparigas da Bola