Ana Catarina Ferreira, A. Stuart H. C. de Massamá, 22 anos



Quem é a Ana Catarina?

A Ana Catarina é uma jovem atleta de 22 anos, natural de Arazede, Coimbra. Está a iniciar o seu mestrado em Ciências do Desporto na Universidade de Lisboa. Enquanto atleta, representa o Stuart Massamá pelo 3º ano.


O hóquei apareceu e conquistou logo um lugar na tua vida, ou foi uma segunda escolha?

Sem dúvida que conquistou logo um lugar na minha vida, na altura em simultâneo com o futebol, mas sim... Eu sempre adorei fazer desporto, e como toda a minha infância foi passada com os meus primos mais velhos eu acabava sempre por ir atrás deles, e foi assim que comecei no hóquei. Ambos os meus primos jogavam, e eu tive curiosidade e experimentei. Adorei desde logo, e como tinha o pavilhão praticamente ao lado da minha casa e da minha escola, eu mal acabava as aulas ia para o pavilhão onde, na altura trabalhava uma Japonesa, Makiko, que também jogava nas séniores femininas. Foi ela quem me ensinou a patinar todas as tardes que eu ia para lá.


Entre os estudos e o Hóquei, onde fica o tempo para a família e os amigos?

Quando queremos muito uma coisa, arranjamos sempre tempo para tudo. O hóquei desde cedo fez parte da minha vida, por isso desde cedo que tive de lidar com isso. Felizmente toda a minha família gosta de hóquei, portanto podia juntar o útil ao agradável. E os amigos igual, tenho muitos amigos que fazem parte do mundo do hóquei, mas mesmo aqueles que não fazem não deixo de estar com eles por causa do hóquei. Talvez não esteja tanto tempo como queria, mas para os amigos e a família arranjamos sempre tempo independentemente do tempo que o hóquei e os estudos possam ocupar.


A Ana que entra em campo equipada é diferente da Ana "sem patins", ou há valores que se cruzam?

Há valores que se cruzam óbvio, mas sem dúvida que me considero uma pessoa diferente dentro de campo. Dentro de campo não há amigos, cá fora até podemos ser melhores amigos mas dentro de campo é uma coisa completamente diferente. Considero-me sem dúvida uma jogadora que não dá uma bola por perdida, uma jogadora rígida pelo facto de jogar muito com o corpo e não ter medo de o usar.


Como te definirias como atleta e como pessoa?

Enquanto atleta, como já referi anteriormente, acho que das coisas que mais me caracteriza é o facto de nunca dar nada por perdido, de lutar até ao último segundo. Não me importo de "dar o corpo ás balas" porque sei que aquela bola que ficou em mim já não chegou a baliza, não tenho medos dentro de campo. Enquanto pessoa considero-me bastante extrovertida,  gosto de estar com os meus amigos, sou alguém que está  sempre pronta a ajudar os outros. Sou sem dúvida uma pessoa muito mais calma e "gentil" do que dentro de campo.


Quem te vê jogar, tem a impressão que estás sempre concentradíssima e focada. Não há nada que te "abale", que te tire a concentração?

Há claro, mas não posso contar ahah. Estou a brincar, eu tento sempre ao máximo manter-me focada e concentrada em todo o jogo para conseguir dar o melhor para a equipa. Mas sim, há momentos do jogo em que posso acabar por perder a concentração e por isso existe uma luta interior para que tal nunca aconteça porque sei que a equipa pode acabar por sair prejudicada.


Arazede, Académica de Coimbra e agora no Stuart. Descreve-nos o teu percurso.

Iniciei no hóquei em Arazede com 7 anos, com 11 anos comecei a jogar pelas seniores, onde estive 3 anos até a equipa acabar. Com 14 anos fui para a Académica, onde aprendi muito e foi aí que fui chamada pela primeira vez à Selecção Nacional. Foi também na académica que tive a minha primeira experiência europeia a nível de clubes, que apesar de termos ficado pela primeira eliminatória, foi sem dúvida um grande momento na minha vida desportiva. Uma grande felicidade para mim, e estarei sempre grata aos dois clubes que me formaram, porque se estou onde estou hoje é muito graças a eles. Já nestes últimos 3 anos estive a representar o Stuart Massamá, onde apenas no meu primeiro ano falhamos a ida a liga Europa. No último ano, conseguimos mesmo chegar à Final Four, outro dos momentos que não vou esquecer, principalmente por ser em Portugal e termos um apoio tão grande. Sem dúvida que todo esse apoio ajudou ao bom jogo que fizemos, mas acabamos por perder com a equipa que viria a ganhar a competição.

Não tirando valor algum a nenhuma das outras equipas, mas é inevitável não perguntar...nunca surgiu o "apelo" do Benfica?

Surgiu sim, mas achei sempre que estava a fazer o melhor para mim e por vezes por incompatibilidades, como a faculdade por exemplo, e por saber que não iria conseguir dar 100% de mim optei por não aceitar. Mas é um clube grande, e sem dúvida que foi um dos clubes que ajudou o hóquei feminino a ter um pouco mais de visibilidade, e por isso nunca digo que um dia não possa vir a aceitar, se o convite surgir novamente.


És das jogadoras Portuguesas mais experientes a nível de Seleção. Como tens visto o crescimento do grupo? Com as diversas alterações e em diferentes competições, temos crescido? Estamos no bom caminho? 

Estamos a crescer e vamos continuar sempre a crescer, porque no dia que deixarmos de crescer vai ser mau sinal. Haverá sempre mais para crescer, haverá sempre algo a melhorar e por isso acredito que todas as alterações que são feitas é para melhor, caso contrário não seriam feitas.


1:45 para o fim...o que podemos conseguir? É possível sonhar?

 É sempre possível sonhar, nós acreditamos que vamos conseguir, se não acreditasse-mos não íamos lá fazer nada. Temos consciência que  é 1'45" muito difícil, mas também temos consciência que esses podem ser os minutos para fazer história. Por isso sim, todos os portugueses podem sonhar porque nós vamos fazer de tudo para deixar a taça em Portugal.


Tem sido um orgulho e um prazer acompanhar-vos. Seja na seleção como grupo, seja individualmente nos vossos clubes. Muito há a fazer para que o Hóquei tenha a visibilidade e o respeito que merece. Para ti, o que é necessário mudar para que tal aconteça?

Nós tivemos um campeonato da Europa em Portugal que não foi transmitido em nenhum canal televisivo, talvez aí pudesse ter sido um grande passo no hóquei feminino. Nós tivemos grandes jogos nesta competição, jogos que podiam ter sido transmitidos e para que as pessoas soubessem que também existe hóquei feminino. Por incrível que parece, ainda existe muitas pessoas que ficam admiradas quando dizemos que praticamos hóquei, porque muitas delas nem sabem que há hóquei feminino, apenas conhecem o masculino. Outro problema é o facto de cada vez mais haverem menos equipas. Infelizmente em Portugal nós deixamos de jogar muito cedo, o que leva a que muitas equipas desistam por falta de jogadores. Uma maneira de darmos mais visibilidade será os "ditos grandes" clubes formarem equipas femininas, darem valor ao hóquei feminino. Por fim, queria só deixar uma grande obrigada a todos aqueles que ainda acreditam em nós e se preocupam em divulgar o hóquei feminino. Neste caso em particular, muito obrigada às Raparigas da Bola por todo o excelente trabalho que têm feito e por ajudarem muito a divulgar o desporto no feminino.



Marta FariaRaparigas da Bola